Cliques

Cliques

Dezembro vem chegando, e eu clico a encerrar os assuntos, como se as datas fossem mais que leves, e quisessem minha vibe sem correções. Olha que aprecio janeiro, ao contrário dos que reclamam do calor. Eu gosto de calor. Por isso, obedeço aos números de nossa metafísica. Clico no x das telas do meu android.

 

 

Clico porque quero fechar as telas, esvazio a memória, limpo a bagunça, desinstalo aplicativos, resfrio e acelero o celular. Mas tem dias deste final de setembro em que sou do contra, e em vez de fechar, eu faço é abrir as telas, ostento meus aplicativos prediletos. Resolução que é sempre de minutos, mas concluo: escolhi o aplicativo certo para a ocasião exata.

 

 

Lembro do aplicativo de encontros. Já usei antes e me dei bem. Mas hoje não basta ter perfil no aplicativo, o crush tem que ter habilidades para interação virtual complexa. Explico: os matches se acumulam no aplicativo conforme sua localização, acumulam mesmo, na tela, porque as conversas iniciam e prosseguem ao mesmo tempo, a onda são as várias conversações abertas. Uma conversa mora longe do bairro e gosta de chupar picolé pela manhã. Outra vem da cidade vizinha, e adora meter o pé na jaca e exagerar no chope. Tem conversa que faz yoga e critica o futebol.

 

 

Nem adianta, o crush não foge à regra: tem que administrar essas conversas todas, aguardando o momento de propor o auge da experiência, quando sairão enfim do aplicativo dois usuários direto para o mundo real. É aí.

 

 

É aí que se encontra o ano que vem e as telas abertas, quando na verdade a vontade é ter apenas uma. Uma tela linda e ideal, aberta para o ano seguinte, onde nosso jeito de ser se misture às esperanças, e o coração encontre inspiração para aproveitar a vista. Essa tela fica aberta. Com sorte, ficará.

 

 

Publicada na Rubem – Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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