Na cozinha com um empadão

Marco Antonio Martire  Cronicas   Na cozinha com um empadão

Na cozinha com um empadão

Acabei de conhecer uma receita de recheio, neste caso de camarão. A massa do empadão não tem mistério, só juntar farinha, manteiga e gema de ovo. Enquanto admirava a feitura da massa, pensei que desejava mesmo saber do recheio, os camarões cinza médio brilhavam de frescos, frescos, e limpos, espalhados no prato, sobre a bancada da cozinha. Estão caros os camarões, deve ser porque muita gente gosta e há menos oferta. Vê-los brilhantes atiçou-me a curiosidade pescetariana pelas partes internas do futuro empadão. Descobrir o tratado que conferiria sabor àquela comida virou o motivo de me apresentar junto ao fogão. Não ouso enganar ninguém, muito menos quem lê estas receitas que escrevo, eu adoro carne vermelha, gosto de pôr as carnes nas chapas, sou carnívoro, mas fui criado comendo muito peixe e crustáceos. De temperar as carnes fui saber depois, sempre sal e pimenta, e cuidado na experimentação. Trouxeram aqui um tempero cajun, um pó alaranjado pra espalhar na superfície dos cortes de carne, que rapidinho me fez lembrar de programas americanos em que os wasps fazem churrascos. Impossível não me surpreender com a quantidade de tempero que os americanos gostam de usar nas suas carnes. Parece que por todos os cantos dos Estados Unidos. O molho barbecue é apenas um, tem uns pozinhos que eles espalham, tem umas seringas que usam pra injetar líquidos nas peças de carne, depois ainda lambuzam o exterior das peças com molhos, de um jeito que ao retornarem do fogo as carnes vêm com uma camada bem preta por fora. Isso lá é bom. Eu mencionei os wasps, que é um acrônimo desgostado para designar brancos, anglo-saxões e protestantes, a maioria que detém o poder econômico na América, mas notei que nos programas de tevê do Tio Sam já aparecem competindo pelos primeiros lugares negros e também latinos. Aqui, como eu disse, sigo a orientação que manda apenas sal e pimenta nas carnes. É da nossa cultura e aprendi a gostar de churrasco assim. O ponto do assado é de cada um. Bem passado não é a minha ideia de sabor, desentendo. Já os camarões, curto se não borrachudos. Fritos, delícia, limão apenas quando prontos e no prato. No recheio do empadão, os camarões cinza médio foram lançados na panela depois de preparado um refogado, com cebola, alho, pimentão vermelho e tomate picados. Meteu-se também o conteúdo de um pacotinho de tempero para caldo. Escaldaram-se os crustáceos e então farinha para engrossar. Salsa e cebolinha. Nada de coentro e pimenta, que há entre nós quem não aprecie. Para dar consistência de creme, uma colherada grandona de requeijão. Light, se for hora de contar as calorias. Subir na balança costumava ser hábito, só que virou medo. A balança me examina ao lado da cama, a balança e eu, eu e a balança eletrônica, bonita de moderna, contemporânea, linda ao pé da minha cama size de cidadão brasileiro. De frente, a tevê ligada nos canais a cabo, canais com programas de culinária e gastronomia. Uso o casal de palavras — culinária e gastronomia — porque nunca sei quando utilizar uma palavra em vez da outra. Não me explicam a diferença. Na cozinha o empadão de camarão. O recheio está danado, provei. Veremos como fica pós forno. Uma fatia ou um pedaço? Acho que é pedaço.

 

Publicada na Rubem – Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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