Na fila do pão

Marco Antonio Martire  Cronicas   Na fila do pão

Na fila do pão

 

Na boca do povo o provérbio: tudo um dia acaba. Talvez por isso eu sinta memórias de relembrar a Copa da Rússia, essa copa que acaba de passar na tela, e que nos deixa um legado de muitos lances. Quais lances vingarão nas futuras compilações esportivas? Felizmente, não me cabem certezas, mas aos cronistas pedem sempre comentar, daí minha falta de sossego, ela vem da ausência de juízo, sou um doidivanas que comenta, quando o que deveria fazer é entrar na fila do pão. Vamos lá, aos comentários, que demoram:

 

 

1. O assédio dos rapazes sobre a moça russa resta como exemplo de nossa bestialidade masculina, principalmente nas horas em que se conclui: tudo é permitido. Porque é uma festa e estamos bêbados? Nossa bebedeira demonstra o quão distante pastamos de uma sociedade aceitável.

 

2. O VAR ficou. Lamentem os peladeiros, o futebol agora é, como nunca, mais dono dos estádios que das quadras e ginásios, mais proprietário dos gramados cuidados que dos campinhos de areia alagados, mais chefe das arquibancadas de cimento que das estruturas removíveis. Gols, pênaltis e cartões vermelhos, a partir da Rússia, receberão afagos: serão legítimos, para o VAR. Os critérios parecem duvidosos? Vai que.

 

3. É preciso estudar muito o que significa dizer “A Copa das bolas paradas”. O futebol é dinâmico. Partidas memoráveis decididas invariavelmente por lances de bola parada nos interessam como definição do jogo? Com a palavra os profissionais que pensam o futebol, que vivem dele, que o querem como sempre foi (este o espaço para o meu saudosismo): um esporte coletivo de possibilidades inesgotáveis, de imprevistos espetaculares e movimentos sublimes, a nos encantar o coração.

 

4. A performance de nossos jogadores não foi a esperada, sabemos, mas mostramos qualidade. Houve exagero? Claro, e cismamos de querer acreditar que a solução de nossos problemas está em sermos proclamados os melhores do mundo em tudo em que metemos as mãos (os pés). O complexo de vira-latas voltou à vida e teremos de combatê-lo, chamem os supergoleiros, chamem os artilheiraços das quatro linhas. Chamem o Nelson. Ressuscitamos um grave complexo como quem gera um zumbi (o monstro dos filmes e séries). Não sei se foi o 7 a 1.

 

5. Por fim, confesso que acompanhei a Copa como pude: não vi o papo do sóbrio Casagrande, parabéns para ele. Destaco, entre os talentosos comentaristas dos canais que transmitiram a Copa, as participações do Jô no programa “Debate final: Especialistas”. O Jô é da tevê e faz muita falta. Queria dizer que o Jô é da tevê assim como eu sou da literatura. Mas talento pra isso me falta. Digo só e apenas que é um brasileiro genial.

 

Publicada na RUBEM – Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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