Não é fake news

Marco Antonio Martire  Cronicas   Não é fake news

Não é fake news

Notícia A

 

Pouco antes consideraram a ideia uma maravilha. Já pensou? Uma inteligência artificial especializada em selecionar entre dezenas de milhares de currículos os adequados às vagas de trabalho oferecidas pela Amazon? Não havia como ser do contra. Coisa de gênio. Arthur C. Clarke diria.

 

Só que não.

 

Desde junho de 2015, o número de contratações na Amazon havia triplicado, fazendo com que a folha de pagamento da companhia alcançasse o tamanho de 515 mil funcionários. Se o nosso horizonte é o de uma esfera azul, ainda que aos nossos olhos plano, planíssimo, economizariam com a ideia um mega tempo na seleção e contratação de funcionários. O projeto consistia na invenção de a new man in charge, um cara pic das galáxias, o algoritmo de inteligência artificial. Expectativa. Rendeu certamente assunto para muito almoço, jantar e happy hour entre os assalariados da companhia.

 

Mas em funcionamento o algoritmo gente boa acabou por agir de forma constrangedora. Acabou por discriminar as candidatas mulheres. Descobriram: criado para encontrar padrões de qualidade reconhecíveis a partir de currículos avaliados como ideais nos dez anos anteriores, esqueceram de um detalhe: ninguém notou que a maioria dos currículos tidos como modelos eram de homens, um reflexo óbvio do domínio masculino na indústria de tecnologia. Operando a partir dessa base de dados, o ex futuro algoritmo do ano entendeu que o desejável para a companhia seriam os candidatos machos, e rebaixou a pontuação de currículos contendo palavras identificadas com o feminino, ou que citassem instituições de ensino exclusivas para mulheres.

 

Depois de detectado o erro, tentaram ensinar ao algoritmo machista que ele devia se posicionar de forma neutra quanto à questão de gênero. Mas a nova diretriz não vingou, o porquê a matéria não explica. Diz apenas que as providências tomadas não o impediram de voltar a adotar práticas discriminatórias. O algoritmo tinha DNA de vilão. O projeto foi abandonado pela Amazon.

 

E eu, fã de ficção científica, não relembro mais “2001 – Uma odisseia no espaço” sem imaginar que uma inteligência ligada nas questões de gênero seria melhor companhia que o Hal 9000 para o Dave Bowman, naquela famosa aventura da literatura e do cinema. O filme seria outro, o final da história seria diferente, a continuação diferente. Talvez o mundo hoje não fosse outro. Será? Kubrick saberia. Mais tarde, sabemos, 30 anos depois, lançaria “De olhos bem fechados”.

 

Notícia B

 

Outro lance curioso acontecerá em breve na China: deu na nossa imprensa internauta que será lançado ao espaço um satélite artificial chinês, com a função importante de iluminar lá dos camarotes do planeta a cidade de Chengdu. Dizem que a lua artificial brilhará no céu da China com uma inacreditável potência, oito vezes superior à Lua original (velha de uso e desuso), o que eliminará a necessidade de iluminação pública nas ruas da cidade sortuda.

 

Caramba! Sortudos serão os casais chineses de namorados. Terão uma felicidade. Vão contemplar a Lua no céu da Ásia quando alimentarem seus sonhos românticos. Ou vão desejar longa vida ao satélite criado pela ciência metálica? Talvez a prefeitura de Chengdu determine dias pares para o culto amoroso da Lua, e ímpares para o satélite artificial (sem nome ainda).

 

Se quiserem a Lua, haverá menos luz banhando os beijos dos casais apaixonados, menos curiosos de olho, estarão ligadas apenas as câmeras indiscretas da ficção científica, aquelas que filmam o calor dos corpos.

 

Se quiserem variar, haverá certamente a luz do satélite novo sobre cada mínimo gesto, potente e inevitável, contrária a qualquer camuflagem. Os namoros serão exuberantes, paixões exibidas à perfeição.

 

Nas ruas de Chengdu.

 

Publicada na Rubem – Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

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