No quiosque meu pai vendeu flores

Marco Antonio Martire  Contos   No quiosque meu pai vendeu flores

No quiosque meu pai vendeu flores

Fez um sacrifício grande naquele verão. O pessoal em casa sofria com o calor, mas ele decidiu foi, antes da estação, equipar o quiosque: comprou um aparelho de ar condicionado para o negócio, um aparelho caro, bom, assim esperava atrair mais clientes, e as flores que vendia sofreriam menos. Fora do quiosque ficariam apenas as plantas mais resistentes, os vasos grandes, com maior reserva de água.

 

A medida extrema afetou as relações em casa. Sua mulher tomou o partido das crianças, considerava aqueles cuidados com a mercadoria um exagero, melhor seria zelar pelo conforto dos filhotes, que se queixavam de calor ao voltarem da escola. Na escola tinham refeito todo o projeto de refrigeração, naquele ano até os corredores entre as salas corrigiam a civilização tropical, o frio escorria das paredes. Na empresa em que sua mulher trabalhava o frio de compartimentos era do mesmo nível, uma vez na caneca antes de três goles o café gelava.

 

O quiosque de flores ficava sobre a calçada de cimento, a metros do asfalto em brasa. Levas de terrível calor povoavam aquele território, combinadas com as brisas reticentes tomavam a região e estabeleciam o padrão para a velocidade dos pedestres: esses iam e vinham espertos e apressados, em busca de um leve refresco, frequentemente se metiam entre as gôndolas da loja de departamentos em frente, sempre acabavam comprando por lá alguma coisinha.

 

Nosso amigo florista sentia bastante calor, mas a ideia de refrigeração veio ao notar o hábito das pessoas na loja de departamentos. Alguém lhe entregou que na loja de departamentos planejavam vender flores também. Instalar o aparelho de ar condicionado passou a ser então questão de tornar a competição mais igual.

 

Nos primeiros dias não percebeu diferença na féria do dia. Só que em casa a família perseverou, a pressão para que o aparelho de ar condicionado migrasse do quiosque para o quarto das crianças continuava, apenas seu caráter de florista resistia à tentação, era necessário enfrentar a concorrência desleal, não podia simplesmente capitular diante da loja de departamentos. A qualquer momento a gigante do atacado receberia flores para vender.

 

Prevendo essa dificílima disputa, comprou livros. Passou a estudar técnicas de vendas, lia os livros dentro de seu quiosque refrigerado, logo percebeu: conseguiu rapidamente um acréscimo de 5% no faturamento da semana. Mas ficou na dúvida se o ganho extra fora em função do aparelho de ar condicionado ligado ou se fora em função das técnicas assimiladas pela leitura. Nosso amigo florista não completara o ensino superior, largara a faculdade de turismo por razões que sua natureza discreta não revela, sua mulher sim é a formada da família, mas conseguira até a ocasião apenas um emprego, queria mais, só que existiam os dois filhos.

 

A tensão provocada pela possível concorrência encheu o florista de neuras. Considerou que seus livros de vendas não eram queridos em casa, passou a deixá-los no quiosque. Aumentou o horário de expediente, gastava quase o dia inteiro sentado no interior do quiosque, aguardando clientes, pensando nas vendas, aproveitando a brisa refrigerada. Observava sempre que podia a loja de departamentos, de olho na chegada das flores, as flores não chegavam, ele respirava desconfiado. Os lucros do quiosque pagavam muitas despesas da família.

 

Faltava um mês para o fim do verão quando o florista sentiu uma emoção estranha. Estava sentado na cadeira de praia, dentro do quiosque refrigerado, olhava através das portas de vidro. Uma senhora passara com o cãozinho, o animal provavelmente faria suas necessidades no canteiro mais adiante, o canteiro era sempre o seu projeto de alívio. Depois viera uma gostosa de bicicleta, atravessara o campo de visão do florista enquanto usava a ciclovia. Pedalava devagar, feito alguém que observa e curte o caminho que percorre. Vestia um shortinho sexy. Logo em seguida viera um rapaz carregando sacolas, sacolas de supermercado, bem cheias, suas compras da semana. Parou um instante diante do quiosque, quase entrou e foi embora. Depois do rapaz com as sacolas não passou mais ninguém. Na verdade foram exatos dois minutos e trinta e cinco segundos de intervalo, em que não passou absolutamente uma viva alma na frente do quiosque de flores. Impossível saber o que provocou a reação do florista, que emoção estranha foi essa, talvez se fossem apenas dois minutos e trinta segundos de vazio ele não sentisse o que sentiu. Se um cliente interrompesse aquela pausa singular no meio do primeiro minuto então, não se sabe como a história terminaria. A percepção de um florista depende do momento tanto quanto as flores.

 

Ele pediu ao rapaz das entregas que tomasse conta do quiosque durante uns minutos. Não era um homem tolo, uma verdade trazia como certa: não tinha grana para fazer tudo o que queria. Naquele bairro em crise resistia há tempos uma loja de chocolates, comprou uma caixa de bombons caros de primeira. O rapaz das entregas fez questão de levar na empresa em que trabalhava a mulher de sua vida. O casamento sobreviveu ao fim do verão.

 

 

 

 

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