Números redondos

Marco Antonio Martire  Cronicas   Números redondos

Números redondos

 

Quem faz opção já no ensino médio pelas turmas de carreiras exatas deve conhecer de perto e no princípio afo rmação dos doidos que desafiam as nossas superstições e brincam em êxtase com os números redondos que atravessam por teimosia as vidas de geral. As loterias estão aí para mostrar como essas matemáticas de números redondos funcionam bem. O sonhador encara olho no olho o número solerte da vez, que de repente vira mistério enquanto se repete de forma pretensiosa ao longo do dia, ao longo da semana, durante o mês… não importa o tempo, importa que o número se repetiu, é recado, tome o rumo da lotérica ou da banca, aposte em um novo dilúvio.

 

Sabemos que existem uns tais números que são primos, esses são um caso à parte, categoria especial, número primo que se repete é um lance sobrenatural, com certeza. Se o número primo surge na conta de uma loja, se repete no restaurante e depois outra vez no homem do coco, melhor sumir. Números primos que se repetem na conta do comércio, notícia da capa é trocar de comércio, porque o negócio ficou muito pessoal.

 

Lembro que número é um troço que dá briga, ainda mais se cresce em dígitos para a esquerda. Antes da vírgula. Que o pós-vírgula é centavos e ninguém se liga na vida por centavos. Mas se a moedinha aparece mil vezes, repetida no chão das avenidas, aí a superstição apavora, eu abaixo sim, pego a moedinha. Nem que venha uma bicicleta fora da ciclovia, vai ter que esperar no sinal.

 

Outro número redondo que parece zoação dos gênios das exatas é a quantidade vendida como protetor solar nas farmácias: não sei qual é, mas gostam nas farmácias dos recipientes de 200ml, seja em forma líquida ou gasosa. Há outros formatos, eu confesso, mas os 200ml têm uma aura que viraliza nas farmácias, fazem sucesso, só dá 200ml. É lei da economia. E me esqueço de passar protetor no quengo quando debaixo do sol. Dona dermatologista contém a bronca, indignada com minha sujeição abjeta aos raios uva e uvb.

 

Mais um número redondo que espanta é idade. Quarenta e quatro anos não são brincadeira, espantam até unicórnio, outro dia a conta no quilo totalizou 44 reais e 44 centavos. Pagos no cartão. Que eu para pedir fiado me falta atrevimento. Por causa de quê? Pensar na conta que devo enquanto mastigo pedaços de carne é uma panacéia que não fiz por merecer. Melhor deixar que a carne colabore com a boca, desça em paz pela garganta, conheça feliz o estômago e folgue aliviada nos intestinos. Eu sei: carne é carne, salve os veganos, número é número, viva as ciências contábeis!

 

 

Publicada na RUBEM – Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

Sem comentários
Deixe um Comentário: