Refeições

Marco Antonio Martire  Contos   Refeições

Refeições

 

Uma taça de vinho sobre a mesa servia como peso de papel. Não se tratava da primeira vez, ele abandonava papéis sobre a mesa o tempo todo. Muitos recibos de contas pagas, correspondências, anotações. A taça descansava em cima da pilha havia horas.

 

Fazia um dia de sol. Que exigia dele uma disposição para conferir. Ainda que esperar dure uma vida, uma vida sempre é pouca para o tanto de espera. Homem de ficar, mais que de sair.

 

Queria comer.

 

Melhor que as panelas e o fogão, que o forno a ser aceso. Sujeito assim não pode ser exigente. Nem deve. Mas é que relaxar em casa soava como uma frase bela, uma corrente de ar que subitamente lhe massageava o rosto e o peito.

 

Passaram cinco minutos. Se espantava com o nada, com o piso e as paredes. Compras para a geladeira. Depois. Alguém que o esperasse. Tinha boas maneiras.

 

Disseram, acho que em um parágrafo entre tantos de um bom livro: maneiras. Enquanto decide sobre o almoço, o banho e o jantar. Lendo livros espalhados pela casa. Se não quiser, não precisa. Mas tenha filhos.

 

Teve. Mas casar de novo. Elas gostavam dele, embora o quanto variasse conforme os dias. Gozo nas refeições, juro.

 

Lembrou da taça. Viu que estava sobre o pilha de papéis e foi até a mesa. Pegou o celular. Carregado.

 

Abriu a porta e saiu.

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