Um autor agradece

Marco Antonio Martire  Cronicas   Um autor agradece

Um autor agradece

Escritores têm sempre muito a agradecer. Não se tem ideia do que é preciso para publicar um livro, da dificuldade que é escrever e publicar neste país. As reclamações são incontáveis, cada um conforme a dor de seu calo. Encontramos fácil quem reclame que publicamos muito, quem diga que lemos e publicamos pouco, quem reclame que publicamos mal, discussão louca. É claro que não posso descrever aqui todo o processo de publicar um livro, eu nem o conheço tanto em sua inteireza. Mas tenho certeza de que está documentado, certo que existem livros narrando o que é escrever e publicar nestas praias um romance, contos, ensaios, poesia. Trato do assunto porque recentemente peguei nas mãos, da minha estante, alguns livros que contam as histórias de editores e livreiros que marcaram época.

 

 

Lembro que, durante muito tempo, julguei que editores fossem uma categoria de gente de origem extraplanar, de tão distantes dos meus olhos. Isso provavelmente pela quantidade de nãos que ouvi a respeito do meu trabalho, sempre que os oferecia para avaliação da parte das consolidadas casas editoriais. Ainda bem que eu sempre soube: receber um sim era proeza difícil, senão impossível, reservada para gente tão talentosa que não existia no mundo. Felizmente, muita gente boa tinha já escancarado o peito e revelara ter passado pelas mesmas dificuldades, até que foram enfim publicadas. Mesmo gentil, ou bruto, um não, uma rejeição, é sempre dura de assimilar.

 

 

Tudo mudou, porém, quando surgiram os primeiros processos de impressão por baixa tiragem. Passou a valer a pena publicar bons livros em quantidades menores, que podiam ser vendidas em noites de lançamento bem divulgadas, através de um boca a boca fiel, que não dependesse de custosas verbas de marketing. Foi, portanto, quando consegui ver os seres editores em seus cantos, passaram a frequentar lugares onde eu vivia, se anunciavam: você é escritor? Sou editor de livros! Foi uma novidade espetacular.

 

 

Pra mim foi a tecnologia. Pra mim foram os editores. Pra mim foram os autores.

 

 

A tecnologia entregou os meios. Editores ousados enxergaram a oportunidade de ocupar um espaço mais perto dos autores (e dos leitores), um lugar cativo e aconchegante, de coração, nós os amamos. Da mesma forma, mirando seu exemplo, autores espertos meteram a mão na consciência e perceberam que era possível sonhar com uma carreira sólida, ainda que menos ambiciosa, mas igualmente próxima dos leitores, que não seriam multidões mensuradas em notas de mil, mas uma gente interessada, muito interessada em literatura contemporânea de qualidade.

 

 

O desafio continua sendo perseverar. Mas agora ficou mais legal, tem mais gente pra conversar e compartilhar as experiências. Também por causa das redes sociais. Que incrível.

 

 

Publicada na Rubem – Revista da crônica. Leia esta e outras crônicas em www.rubem.wordpress.com

Sem comentários
Deixe um Comentário: